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Santhiago Selon

SANTHIAGO SELON – CRIAR ESPAÇOS DENTRO DE ESPAÇOS

 

Abrindo a exposição, um dos trabalhos de Santhiago Selon está pintado em azul e branco na área externa sobre a parede curva da base de sustentação da sala suspensa do Museu, outros dois estão pintados em tons de amarelo e azul, sobre a parede que contorna a escada curva de acesso à Galeria D.J. Oliveira, no piso subterrâneo.

Santhiago Selon é um artista cuja obra transita com desenvoltura entre a ocupação de espaços internos e externos, sejam lotes urbanos marginalizados ou os espaços institucionais de arte, cercados de prestígio. Sua produção é bastante vinculada ao graffiti, embora eu veja que esse vínculo ocorre mais pelo fato do artista também trabalhar na rua, juntamente a outros grafiteiros, usando muros em locais baldios ou em demolições como suportes para trabalhos de duração efêmera (uma vez que sofrem intervenções de quaisquer naturezas, às quais estão susceptíveis no espaço urbano, ou são demolidos pelas sucessivas construções que transformam as paisagens das cidades na atualidade). De outra forma, sem achar que é importante definir uma categoria para sua produção (mesmo por que ela também se expande para suportes como a tela e o papel, envolvendo pinturas e gravuras digitais), vejo-a muito mais próxima da História da Arte, sobretudo da vanguarda abstrata geométrica do século XX, do que do graffiti, mesmo ela estando nos muros das ruas.

 São motivos pelos quais eu faço esse enquadramento: a linguagem estruturada nas formas geométricas; o fato de Santhiago Selon citar a economia cromática do pintor holandês Piet Mondrian (1872-1944) como referência para sua paleta reduzida de cores, restrita a tonalidades muito específicas; a direta relação de suas obras com a espacialidade arquitetônica ou com a linguagem do design; as propriedades de suas pinturas sobre parede demonstrando afinidade com o conceito de pintura parietal do minimalista americano Sol Le Witt (1928-2007). Com isto quero dizer que Selon, por meio do filtro de seu olhar, atualiza elementos da tradição e propõe uma linguagem contemporânea ao código construtivista. Além disto, o universo figurativo, a característica ilustrativa, o apreço pelos aspectos pop, pelo imaginário infantil e ingênuo, esses aspectos manifestos comumente no repertório de graffiti, são peremptoriamente recusados por Selon, que visa uma linguagem ordenada objetivamente, geométrica e racional, sem narrativa, descrição ou afetações de subjetividade.

Sem definir somente um local de ocupação e sem hierarquizar as terminologias das categorias, Santhiago Selon cria trabalhos que se iniciam em projetos desenhados por meio de programas de computador e são finalizados na parede com a aplicação direta da tinta aplicada por sua própria mão, sem uso de assistentes, de esquadros, de fitas isolantes ou de ferramentas de precisão.  Uma pintura que nasce pelo cálculo e termina aplicada organicamente sobre a superfície mais antiga sobre a qual a humanidade pintou.

O verso do poeta francês Paul Éluard: “As paredes estão cheias de espaço"[i] é como uma bússola que me orienta a pensar as obras que Santhiago Selon concebeu especificamente para esta exposição. O que o artista realiza interfere bastante na nossa compreensão do lugar, visto que suas manobras criam espaços poéticos sobre as paredes, criam construções racionalistas que são também ilusões arquitetônicas vertiginosas ou projetos de design sem nenhuma utilidade, constituídas por sucessões, por tensões, por encaixes, por intersecções de planos pintados com economia radical de cores sobre o espaço branco, bidimensional, liso e curvo das paredes, que são em suma a afirmação material do espaço da instituição Museu, lugar de sacralização, de historicização e de musealização da experiência artística. A perspectiva cria profundidade e permite ao olhar penetrar naquela construção geometrizada,  entender a ilusão de interioridade num espaço que é somente superfície, e que se abre à imaginação do espectador e o convida a entrar num universo que é ao mesmo tempo realidade e ficção, com temporalidade oscilante entre o passado, o presente e o futuro.

 

 

 

* Divino Sobral é artista visual, crítico e arte e curador independente.

 

1 A respeito das exposições e programas mencionados nesse parágrafo consultar: Camila Duprat, Daniela Bousso, Renata Motta; Entrevista com Walter Zanini; in: Catálogo Prêmio Cultural Sergio Motta; Instituto Sergio Motta; São Paulo; 2002; pag. 28-44. Stella Teixeira de Barros; Centro Cultural São Paulo: 1991; in: Galeria Revista de Arte; nº 25;  São Paulo; 1991; pag. 90-93. Catálogo Temporada de Projetos 2003-2004; Paço das Artes; São Paulo; 2003.

 

2 Paul Éluard. Poemas; tradução e seleção de José Paulo Paes; Nova Guanabara; Rio de Janeiro; 1987; pág. 90.

 

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